O Fogo que arde sem se ver.

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

27/05/2018

A vida de um monge é simples e frugal, se vivida de acordo com a sua vocação. Para manter a temperança faz-se mister o hábito da meditação e a dedicação ao trabalho em prol da irmandade. O fundamento dessa prática vem da ideia de que a cabeça ocupada torna-se um templo divino, afastando o suposto perigo da cabeça vazia, oficina do tenebroso. Assim, os dias passam despercebidos numa ilha de paz, uma vez que para além dos muros do monastério, o mundo submerge nas trevas. Por isso, não reclamo da sorte que me tornou órfão, ainda lactente no ano de mil quatrocentos e noventa e dois, pois ela também me providenciou os cuidados de uma ordem cristã, garantindo o pão nosso de cada dia e uma perspectiva de paz relativa até o final dos tempos.

A rotina de um mosteiro na temporada de caça às bruxas é rígida e infalível, como se o mundo dependesse da labuta sacerdotal cristã para ter direito a mais uma aurora. Às quatro horas da manhã é preciso acordar, para as primeiras meditações em temáticas bíblicas. Às cinco horas, começam os preparativos de higiene pessoal e vestimenta, ainda na própria cela, assim como checagem de todos os instrumentos da fé: a Bíblia, o crucifixo e o terço. É possível sobrar algum tempo para ler antecipadamente sobre o tema da pregação matinal. Todos juntos fazem o desjejum às seis, para em seguida, às sete, reunirem-se na capela principal para ouvir o sermão diário. Às nove, todos estão prontos para os ofícios e trabalhos, metodicamente divididos entre os irmãos, conforme a vocação. A minha, desde muito cedo, foi a de escrivão e compilador. Como atividade ligada às letras, sempre foi possível conseguir algum tempo de ociosidade para se deleitar com os livros, sob o pretexto de fundamentar a exegese. Na teologia inquisidora, a heresia da exegese faz tremer a pena, como se apenas esta última fosse criação da mente humana. Eram meus sublimes instantes de liberdade, durante os quais a mente galopava a centenas de quilômetros acima daquelas telhas que protegiam ao mesmo tempo em que oprimiam o pensamento e o coração. Tudo estava encaminhado para uma morte velha e tranquila, já no início da idade adulta, um prodígio na época. Bastava se esquivar dos conflitos e sonegar à mente o que os olhos sofregamente testemunhavam: o poder aviltante de uma classe que se julgava mais próxima de Deus.

O sudeste da França, entre trevas e renascimentos, foi o meu lar até os vinte e cinco anos, quando por algum desígnio desconhecido, fui escalado para uma missão da Inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana na Germânia. Então me comportava como um carneiro seguindo um pastor desconhecido, um animal que dá tudo pela perigosa sensação de segurança, que em verdade é a acomodação espiritual.

Chegamos aos bandos e escoltados por uma larga cavalaria, como uma cruzada dita em nome de Deus, mas mandada pelos homens. Assentamos num antigo convento. E os trabalhos começaram a contragosto da população local, que não se rendeu facilmente. A situação de tensão demandou a presença do temido bispo inquisidor Tomaz, vindo da Espanha, com seu crucifixo de ouro, que bem poderia ser substituído por um tridente, mais conveniente à sua personalidade perversa. Usando métodos de intimidação, começaram a surgir os bodes expiatórios e os nervos ficaram à flor da pele.

Nesse contexto, surgiu uma beldade que mudaria todo o rumo de minhas fantasias pacificadoras em meio ao caos. Uma mulher benfazeja, uma pastora, que mobilizava dezenas de aldeões para ouvir as suas palavras mais doces do que o mel. Numa diligência à vila mais próxima, me perdi do bando para achá-la, tão singela, numa viela, ficou pintada assim na tela mental em aquarela. O coração palpitava as ideias mais fascinantes em cima de um cavalo alado em direção ao paraíso. Uma admiração automática e natural, junto com a incômoda constatação da dissidência religiosa. A verdade do amor falou mais alto do que a prudência cômoda de uma fé cega.

Raquel foi predestinada a orientar o homem. Dominando muitas línguas, como o latim, o grego, o hebraico e o aramaico, desmistificava com propriedade as crônicas da Bíblia, tirando o povo do engano e do preconceito. “Dizem que a mulher deve ser submissa ao seu homem. Cuidado! De que submissão está sendo falada? No original em hebraico, é dito que todos devem ser submissos EM CRISTO, uns aos outros, e as mulheres aos seus homens também. Por tanto, se o homem estiver andando por caminhos escusos, não é prudente segui-lo cegamente. A submissão em Cristo é natural e pacífica, portanto, conduz a um lugar seguro, sem opressão, ou seja, é o caminho da verdade. Um homem não tem poder ilimitado sobre a mulher. Mas esta também não pode se rebelar e usar contra o homem esse direito à igualdade, que Cristo nos ensinou. Somos iguais no que diz respeito a Deus. As diferenças de poder são imposições da humanidade. Vamos então viver em harmonia com justiça, em nossas famílias e nos nossos lares, dentro da paz de Cristo.” Nunca tinha ouvido um discurso tão forte e libertário, assim como doce e meigo. A elevação espiritual a que Raquel nos conduzia se fundia com a sua beleza carnal, fazendo palpitar fortemente o coração. Foi a primeira e única vez que senti tal sensação. Foi assim que descobri o amor. Ainda que ela falasse todas as línguas e até mesmo a língua dos anjos, sem o amor as suas palavras nada me diriam. A vida monástica perdeu o sentido e a igreja católica virou um cárcere privado. Vislumbrei a tragédia iminente, mas o espírito ardia por uma existência verdadeira e naquele ponto a alma se rendeu aos desígnios dos mistérios do coração.

Tomaz já tinha percebido a ameaça ao domínio católico apostólico romano e havia uma investigação em curso. Uma mulher estava incitando o povo a ser livre e a interpretar a palavra de Jesus. Isso soa como uma heresia para a igreja católica da idade das trevas, o que só poderia acabar na inquisição. Levando-se em conta que nesse período começou a existir alguma proteção dos príncipes a sacerdotes, que viriam a ser denominados protestantes e tinham no padre Lutero o seu principal idealizador e teólogo, havia a necessidade de alguma diplomacia para resolver o conflito.

Na noite do dia em que conheci Raquel, ardi em febre. Balbuciava o seu nome e pedia à Santa Virgem Maria proteção, naquela situação conflituosa. Os monges mais antigos não entendiam a fala embaraçada que saia do meu corpo convalescente. Até que, o bispo foi à minha cela, checar o que estava acontecendo e tomar as providências em caso de epidemia ou risco de contaminação. Ao ver o quadro do paciente,  ele disse que eu não poderia acompanhá-lo na missão da manhã do dia seguinte. Quando todos já se dirigiam para a saída da sela, ouvi a palavra Raquel saindo de seus lábios e logo em seguida praguejou: “Ela arderá nos quintos do inferno. Aquela bruxa já lançou seus tentáculos até mesmo dentro dos muros da nossa congregação! Que audácia!”. Nesse momento, ele disse ao frade que no dia seguinte faria uma busca na cidade para prender a herege que alimentava o protestantismo.

Os ouvidos reverberavam o diálogo aterrador e um frio lancinante sanou milagrosamente toda a febre. O corpo ficou frio e rígido como o gelo. O que fazer agora? Na madruga que se seguiu, quando ninguém mais estava preocupado com o meu mal súbito, tomei a decisão mais corajosa em todos esses vinte e cinco anos de comportamento covarde. Silenciosamente, levantei antes dos irmãos, às três da manhã. Entendi a importância da disciplina do treinamento monástico somente então, pois levantei com toda a energia. Vesti o hábito e fui em direção à cidade. Lá chegando, demorei a conseguir alguma indicação da morada de Raquel. Mas enfim, quando o sol raiava eu batia em sua porta. Um senhor, que deveria ser o seu pai atendeu. Meu coração ia adiante de mim e precipitava as palavras, tornando difícil a compreensão. Mas ele captou a intenção de que era com a sua filha que o assunto deveria ser tratado, me acomodando numa espécie de sala. Depois foi chamá-la. O jeito dela de andar em minha direção e sorrir naturalmente, numa madrugada qualquer diante de um estranho insignificante, me fez perceber a sua grandeza e elevação espiritual. A explosão de sentimentos extraordinários tornou a linguagem verbal um tanto precária para expressar tudo o que se passava. Ela entendeu que estava em perigo, mas não entendia que eu também estava por um fio, que deveríamos fugir juntos e que eu ficaria ao seu lado para sempre. Tarde demais, abruptamente, a casa foi invadida. Coloquei-me em sua frente, numa luta inútil para tentar evitar o mal que estava por vir.

Em uma cela, a bela Raquel urrava a lancinante tragédia do suplício desumano. Em outra, eu fazia o dueto do martírio na cena do suposto exorcismo. É preciso ponderar que isso causou uma profunda desorientação mental e por fim a confissão do pecado mortal da heresia. Fui tomado como vítima da bruxa, que por sua vez, arderia em público na fogueira da temida inquisição. Eu estava lá, na primeira fila. Era parte do método empregado de desobsessão, queimar a origem do mal na frente da vítima. Ela estava amarrada num poste de madeira sob um monte de palha seca, abatida e cansada. Mas eu só via a grande alma que está acima das sandices humanas. Após o discurso hediondo do bispo Tomaz, uma chama foi acesa e colocada na palha. Esse instante foi paralisado em minha mente. O fogo que arde sem se ver, mais lancinante que a própria fogueira, consumia por dentro. Impossível retroagir depois desse sentimento despertado. Algo deveria ser feito para apaziguar as chamas que queimavam nas entranhas do ser. Como um raio que traz uma clareza súbita e antes que qualquer razão possa ponderar as consequências materiais, lancei-me para dentro da fogueira e beijei apaixonadamente a minha amada. Primeiro ela se assustou, mas depois compreendeu o esplendor do que estava acontecendo. Fundi o meu rosto entre o seu pescoço e o ombro, ao que fui correspondido no mesmo gesto. Havia paz no centro da fogueira, tornando crível o relato do capítulo 3 de Daniel. Não me lembro da dor da queimadura, pois quanto mais queimava, mais apertava firme o corpo de Raquel e mais sublime se tornava o amor, fundindo os corpos e os espíritos, como pedras preciosas sendo unidas em um anel de ouro. Através do fogo foram entrelaçadas duas almas tornadas gêmeas na ocasião em que uma centelha de luz riscou o céu da idade das trevas.