Bora Andar Capoeira

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

15/05/2017

C7M          G4

Bora andar Capoeira

C7M          G4

Vender Dendê

C7M          G4

Mungunzá lá na feira

C7M          G4

Comer lelê

D7M        G9/A

Mainha tá na roça

D7M       G9/A

Pega milho pro fubá

D7M       G9/A

Painho na canoa

D7M       C7M

Pega peixe pra jantar

Bm         E

Sobe pega côco

Bm         E

Que dá leite sem parar

C#m       F#m

Sinta que deleite

C#m       F#m

Mais gostoso que manjar

C7M       G9/A

Maravilha

C7M       G4

Bora andar Capoeira

C7M       G4

Vender Dendê

C7M      G4

Mungunzá lá na feira

C7M       G4

Comer lelê

D7M       G9/A

Entro nessa roda

D7M       G9/A

Que alegria que me dá

D7M       G9/A

Painho me dá a benção

D7M       C7M

Vou ali e volto já

Bm       E

Paris a Alemannha

Bm       E

Inglaterra alto mar

C#m       F#m

Do Japão para as Américas

C#m       F#m

E a Índia o que será

C7M        G9/A

Maravilha

C7M       G4

Bora andar Capoeira

C7M       G4

Vender Dendê

C7M       G4

Mungunzá lá na feira

C7M       G4

Comer lelê

D7M       G9/A

Capoeira roda roda

D7M       G9/A

Pra um dia vir achar

D7M       G9/A

O que tem naquela rosa

D7M       C7M

Que não para de cheirar

Bm       E

Bem distante muitas léguas

Bm       E

Seu perfume está no ar

C#m       F#m

É o mistério do Planeta

C#m       F#m

Minha terra nosso lar

C7M       G9/A  

Maravilha

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Quando eu mostro minhas músicas para os amigos eles se espantam e por vezes comentam com surpresa e admiração: “Não sabia que você é compositor”. Normalmente, respondo da seguinte forma: “há pouco mais de dois anos atrás, eu também não sabia”. Sempre gostei de tocar algumas músicas de Bossa Nova, como “Wave” e “Chovendo na Roseira”, a primeira de Tom Jobim com Vinícios de Moraes e a última de Tom com Edu Lobo. A forma como aprendi tais canções foi através da repetição constante. Hoje sinto falta de um conhecimento sobre o sistema musical e as relações das notas e escalas, através das quais as músicas encontram harmonia e melodia. Mesmo sem saber exatamente qual é o acorde, eu faço uma imagem visual e procuro acrescentar o ritmo.

Além disso, sempre gostei de brincar livremente no braço do violão. Outro dia, executando uma canção da qual gosto bastante, chamada “Vitoriosa” de Ivan Lins, mudei ludicamente o ritmo das duas primeiras notas, um ré com sétima maior e um sol com nona e baixo em lá, colorindo com um tom mais baiano, entre o afoxé e o ijexá. Se aqui coloco exatamente o nome dessas notas, é porque existe dicionário de acordes na internet, o que facilita a vida de analfabetos musicais como eu.

A brincadeira foi evoluindo e tentei agregar mais um par de notas e encontrei um solitário dó com sétima maior, mas logo senti que ele estava em busca de uma outra companhia. Faltava a sua cara-metade, uma nota parceira que combinasse numa melodia. Fui tateando e tateando, até que liguei as coisas no pensamento: era algo próximo do sol, algo que iluminasse com força e brilhantismo. Para minha sorte, eu me encontrava num momento de sincronicidade: estava tentando aprender também uma balada chamada “The Game of Love” de Alex Ander e Rick Nowels, que ficou famosa na versão tocada por Santana e cantada por Michelle Branch. Nela havia um sol com quinta que soou muito interessante para mim, mais ainda não batia perfeitamente no meu coração quando me voltava para o encontro melódico que tinha promovido. Resolvi descer um número e encontrei um casal perfeito que se saiu muito bem e, pasmem, saíram lado a lado, o dó com sétima maior junto com seu consorte sol com quarta.

É nítido que não entendo de teoria musical e nem tenho uma explicação plausível para justificar o fenômeno da receptividade das canções que me vêm aparecendo na vida. Posso descrever o processo. Brinco com algo interessante. Gravo o projeto de melodia no celular. Venho testando e testando e chego a um resultado que merece ser ouvido repetidamente, pelo menos, pelos meus ouvidos, pois minha esposa, por exemplo, não suporta o processo. Ela implora por uma casa maior para atender às necessidades de todos, mas ainda espero pelo sucesso avassalador de alguma música irresistível e bela. Portanto, escuto repetidamente em muitos momentos do dia, de uma maneira tal que nenhuma pessoa normal suportaria ouvir. Ouço durante os deslocamentos de um lugar para outro, nos intervalos de uma atividade para outra, espremido entre as tarefas do homem moderno. Já a letra vem se apurando na medida em que venho vivendo as experiências da vida.

Quando a melodia de “Bora Andar Capoeira” se apresentou por completo, eu vivia os preparativos para ir à Paris e depois para a casa de meu compadre na Alemanha. Peguei o celular e perguntei-lhe o quê, da Bahia, seria bem vindo em sua cozinha germânica. Antes de revelar sua resposta, é preciso dizer que ele é capixaba, tinha vivido 3 anos em Salvador e se apaixonou, juntamente com sua esposa, pela culinária local. Especialmente, eles tinham amado a experiência do dendê na muqueca. Isso mesmo! eles me pediram para levar-lhes dendê para a Alemanha. Comprei então no mercado mais de 10 garrafinhas de dendê e as pus na mala. Contemplando a arrumação da canastra, fiquei rindo, comigo mesmo, ao fantasiar uma possível interpelação na alfândega da comunidade europeia. Terei que me explicar acerca daquele óleo misterioso, de vermelhidão característica e que só de olhar causa volúpias? A lei fria germânica, que rechaça qualquer menção a um suposto contrabando de mercadorias, com potencial de ameaçar a ordem pública ao abalar a racionalidade do velho mundo através da sensualidade culinária, estaria pronta para compreender a minha ancestralidade afrodescendente que me cravou no DNA o traço do dendê? Como explicar que eu não pretendia vender dendê... Ops! Eu já estava vendendo dendê? Sim estava levando a baianidade para o mundo. Estava andando pelo mundo. Não só eu, mas eu estava convidando minha família. Um convite para andar já foi expresso na Bossa Nova pela música “Borandá”, de Edu Lobo, com um tom político e crítico. Reconheço que essa música ecoou no meu inconsciente. Por outro lado, é comum ouvir a expressão “bora andar” hoje em dia, como uma simplificação do “Vamos andar?”, mas num contexto relacionado ao ato em si, um convite para a ação de ir se exercitar. Naturalmente veio à mente a figura de um baiano vendendo dendê pelo mundo que só poderia ser um “capoeira”. Junte tudo, cozinhe por um tempo na água fervente, e extraia a essência ou síntese do primeiro refrão: “Bora andar capoeira, vender dendê”. Em um só golpe encontrei a temática da música, uma métrica adequada à poesia e à melodia e a inspiração para trazer o resto da letra.

Brincado com as palavras, percebi que andar rima com munguzá, que é outro produto da terra. Decidi então buscar, através de um dicionário de rimas da internet, a rima com capoeira. A sugestão da feira saltou aos olhos: é onde estão as coisas gostosas da nossa terra, onde tem mingau e lelê, que rima com dendê.

Sou um tipo um tanto quanto imaginativo, mas com os pés na roça. Para me tornar um fazendeiro, por exemplo, primeiro compro o chapéu, depois o cavalo e só então começo a pensar em comprar a fazenda, nos campos da qual irei majestosamente desfilar a cavalgadas. É obvio que já tenho o chapéu, onde estou semeando sonhos na aba. Ali vejo crescer, nos hectares da imaginação, um bosque repleto de frutas viçosas e pastos verdejantes onde pastará o meu alazão. Portanto, meu pensamento é assim meio mágico e fantástico, mas fundado numa vida camponesa imaginária que visita constantemente a roça, pegando o milho para o fubá. Para os mais racionais entenderem de onde vem essa necessidade por terra, ao longo de toda a minha infância ouvi histórias maternas a respeito da fazenda de meus avós, a qual o rio São Francisco tomou por completa depois de uma manobra da engenharia humana. Talvez atendendo à profecia do Conselheiro, fez-se um mar (mais exatamente um lago) em pleno Sertão que inundou uma série de cidades, inclusive Remanso, cidade natal de minha mãe. Com o inconsciente bem alimentado de arquétipos rurais, pintei meu pai numa canoa imaginária, em um rio de grandeza oceânica ou, pelo menos, de proporções a se perder de vista, pegando peixe para o jantar. Mas talvez eu esteja falando de mim mesmo caçando peixes na casa de praia de meus pais enquanto meus filhos aguardavam a refeição. Lá existem dois coqueiros que nos fartam de coco durante todo o veraneio. Eu mesmo subo, pego, abro, bebemos, tiramos a carne, fazemos o leite, tomamos o sorvete e com o bagaço, misturamos o açúcar para saborear a cocada. Só pode ser uma MARAVILHA!

É tão bom as coisas da nossa terra quando nos damos conta do tesouro enterrado no jardim de casa, bem embaixo do próprio nariz. Reconheço que tem de ser um pouco alquimista para desenterrar o ouro. Paulo Coelho deu a dica ao retratar o pastor que teve de ir até às longínquas pirâmides egípcias, guiado por um sonho trivial, para saber que seu tesouro dormia, bem embaixo de seus pés, em sua terra natal. Muitos por preguiça, ao ler o livro dele, deixam de viajar, pois acreditam que não precisariam se deslocar tanto para serem felizes. Sei não, navegar é preciso! Quando viajamos, é possível perceber outras maravilhas que tem no mundo. É quando o “capoeira” entra na roda e visita outros lugares, nos quais tem que gingar e jogar sua capoeira para sobreviver. Nesse giro, ele encanta e se encanta com as maravilhas do mundo que roda. Mas para entrar na roda é preciso pedir licença. Eu sou servidor público e tive que pedir ao governador a licença para sair do país. Painho me deu a benção e eu pude compor o resto da música.

Naturalmente citei os Novos Baianos, o célebre grupo, outro delicioso fruto da nossa terra, que tanto nos ensinou dessa culinária musical que mistura ritmos de forma tão graciosa, que nenhum chefe no mundo soube ainda destrinchar a receita. Por isso, depois de rodar e rodar se apresenta o mistério do planeta. Sem parar, a rosa da terra natal exala suas fragrâncias para o indivíduo, até os recônditos do planeta, pelos quais ele por ventura um dia venha a se aventurar, lembrando-lhe que nasceu em um lugar especial para o qual por vezes deseja avassaladoramente regressar, mesmo que esteja distante muitas léguas. Mas a minha terra é todo o globo, é uma maravilha só!

O sucesso já estava na parada do meu coração. Tocava e tocava para mim mesmo. Aí os vizinhos íntimos começaram a prestar atenção, aqueles que moram no quarto ao lado. Os meus filhos gostaram. O mais novo até pediu para a mamãe fazer o tal do “Gungunzá” e clamou tanto que eu comprei o milho branco de mungunzá e o leite de coco para saciar a sua vontade. Esse foi o primeiro resultado alvissareiro de toda essa aventura sonora: auxiliar uma criança de 5 anos a comer um alimento tradicional, de valor nutritivo comprovado e, pasmem, com água na boca. Venci uma batalha contra a apelativa industria da alimentação fictícia, para a qual dei o nome de “ilusão”: balas, doces, bolachas, enlatados diversos e fantasias que seriam ilimitadas se não fosse a morte por câncer, colesterol alto, diabetes, pressão alta e etc. Mas deixemos as ilusões para o dia da ilusão, que não pode ser todo o dia da semana.

Quando voltei de viagem, fundei junto com meu amigo Vagner Alves, o Papo Musical, um espaço multidimensional de arte, cultura e lazer. É onde comecei a apresentar minhas composições e ter opiniões externas. A gente se encontra, conversa e toca música. Lembro do querido Gabriel trazendo as informações “secretas” sobre as músicas que surgiam na conjunção cósmica do momento. Temos também a presença frequente de nosso gracioso maestro Moisés conduzindo, atenciosamente, com sua entusiasmada batuta transcendental, os trabalhos do grupo. Quando todos cansavam, ele tirava da cartola algum solo no piano. O meu número principal nesses encontros é “Bora Andar Capoeira”. No primeiro dia que toquei havia a presença de um exímio guitarrista: Marcelo. A medida em que ele ouvia, pela primeira vez como se fosse uma jam session, ia criando solos extraordinários que foram registrados pela incansável retina digital de Vagner, um documentarista de mão cheia. Eu não sabia se tocava, ou cantava ou se apenas parava tudo para ouvir o solo de guitarra embelezando a minha música. Mas algo me dizia que se eu parasse, Marcelo se assustaria e pararia também. Instintivamente continuei. No final declarei definitivamente: “quando eu gravar essa música você fará o solo”. Mal tinha acabado de conhecer ele, mas a sintonia e a empatia que preencheu a sala trouxe a certeza de que a reencarnação é uma possibilidade forte de explicação para as afinidades gratuitas que surgem da maneira mais inusitada.

Passou-se um ano e tudo ainda estava apenas no meu violão. Decidi dar um passo adiante. Um Festival de Rádio, da Rádio Educadora. "Quem sabe essa é para tocar no rádio?", pensei comigo mesmo. Anteriormente, tinha participado do prêmio Caymi com a canção “Volto para Ti”, gravada no celular mesmo. Dessa forma amadora, também seria difícil ser ouvido. Precisava de algo mais profissional. Para minha sorte, temos amigos e podemos fazer mais amigos. Foi assim que surgiu um grande amigo chamado Joaquim Carvalho, através da indicação de outro grande amigo cantor Zé Costa. E começamos a gravar. No dia em que levei Marcelo escrevi assim:

“Hoje é o dia especial de gravação de Bora Andar Capoeira. Por sorte, no almoço, encontramos Dorival e trocamos algumas figurinhas para embelezar essa linda canção que nos conquistou. Descobri hoje que eu não sou o dono de Bora Andar Capoeira. É ela que me tem, ela que me escolheu para ser seu compositor. Percebi que se trata de uma amante fogosa e que não sou capaz de satisfazê-la sozinho. Logo ela escolheu para si Marcelo Henrique para lhe sussurrar aos ouvidos sedutores solos de guitarra. Mas os dois também não foram suficientes. Precisou de Joaquim Carvalho para completar o time e produzir seus belos arranjos, dignos de Yemanjá. Além disso, emprestou sua bela voz para se lançar ao mundo. Como toda boa amante, deixa seu amado pensar que a tem, mas é ela que me domina com suas pernas envolventes e mãos macias e calorosas. Oxalá quem sabe seremos felizes para sempre.”