O Yoga Para Ti e para o Macaco Panu, Caxixis.

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

15/05/2017

Lá estava o Macaco Panu, a caminhar pela floresta, inocente como se estivesse nu, a sua vida parecia uma festa. Tudo fazia sem medir as consequências, uma ideia aparecia e lá ia a sua saliência. Certo dia encontrou a preguiça com o seu caxixi e logo desejou aquele brinquedo para si. Esperto como era, esperou o bicho dormir, para que não virasse fera, e suavemente conseguisse subtrair. Delicadamente retirou o chocalho sem deixar vestígios, tamanha era sua capacidade de realizar prodígios. Em pouco tempo já estava em seu bando, fazendo o mágico barulhinho e, desse modo, ostentando.

 

Foi então que o Macaco Forte mudou-lhe toda a sorte, ao toma-lhe o ouro. Pegou facilmente o pequeno tesouro, só restando-lhe chorar e se queixar, até mesmo com o besouro. O sofrimento se tornou demasiadamente duradouro e até o Macaco Velho percebeu o mau agouro: “O que é meu filho que se passa por debaixo de teu couro? Parece que por cima de você passou um touro!”. Em silêncio, permanecia a criança, sem saber como dançar aquela dança. “Então apenas olhe para mim e respire fundo, vamos encontrar de onde esse mal é oriundo”. Ensinar a respirar foi o primeiro passo para uma luz despertar. “Vamos começar enchendo a barriga para depois o pulmão inchar. Ao esvaziar o pulmão, a barriga volta para o seu lugar”. O segundo passo foi controlar o tempo para o oxigênio entrar. “Um, dois, três e quatro, já pode segurar. Cinco, seis, sete e oito, devagar pode soltar”. E assim o prānāyāma foi fácil de relembrar e a prática do yoga fez Panu serenar.

 

Mas o Macaco Velho percebeu que ainda havia agitação, logo ensinou um monte de āsanas para que o corpo falasse pelo coração. O macaquinho não ficou na confusão, pois não se tratava de palavrão, vê que o nome “āsana” apenas significa posição. Então vamos lá, vamos acompanhá-lo e assim exercitar. Sentado no chão, tu esticas as pernas e para com o blá blá blá. Nesse momento, é no silêncio que tu deves estar. Respira e estica os braços acima da cabeça, alinhando a coluna inteira. Sinta toda energia que faz a mente faceira. Agora solte o ar devagarzinho, os braços descem em direção aos pezinhos. A ideia é a testa beijar os joelhos, com as pernas esticadas, mas antes, prestes atenção ao conselho: só dobre lentamente a coluna e aos poucos lá chegarás, sem nenhum aparelho. Se estiver difícil, terás que praticar todo dia, sem nenhum martírio, pois com paciência desde o início, após alguns meses, realizará o grande prodígio. Mas por enquanto apenas respira, sente e solta: transforma a rigidez sem revolta, pois, mais cedo ou mais tarde, a paz baterá em tua porta.

 

Agora, coloques sola de pé com sola de pé. Não te preocupes com o chulé, pois voarás como uma borboleta, com muito axé. Assim mesmo: respira, sente e solta os joelhos, a coluna ficará reta, é só olhar no espelho. Um minuto ou dois é possível voar sem nenhum aparelho. Se o teu voo não foi tão longo, examine bem esse mistério, já estás ficando igual a um velho? Se ainda és um fedelho, não fiques vermelho, quando tu praticares yoga com disciplina e esmero, desenvolverás a mesma agilidade de um coelho.

 

Bem, dobrastes muito a coluna para frente, que tal esticá-la para traz, quem sabe, de repente? Vamos fazer uma ponte da gente. Primeiro deita no chão e dobra as pernas, será bom à beça. Os braços são dobrados com as mãos, ao contrário, ao lado da cabeça. Depois levanta os quadris para que o peso favoreça. Respira, sente e concentra agora em levantar a cabeça. Assim será fácil fazer com que a ponte apareça. A coluna vira um arco, que beleza. Se não estiver conseguindo, não te aborreças. Terás que esperar alguns dias até que o braço se fortaleça e a rigidez do teu corpo desapareça. Faz até onde conseguir e busca a firmeza, dentro de ti a encontrarás com certeza.

 

Agora faz tudo ao contrário, joga as pernas para cima e vejas só o resultado. É a posição da vela, ou sarvangāsana, tu podes ficar novamente jovem de graça, sem mistério ou trapaça. Sente o sangue escorrendo para a cabeça. Com o tempo isso é moleza. Alivia a força da gravidade e assim nos deixa na tranquilidade. O joelho e a coluna agradecem esse gesto de caridade, pois deles retira todo peso que carregam desde tenra idade.

 

Muitos outros āsanas foram praticados e o corpo foi ficando no jeito para meditar sentado. Por algum tempo, colocaram a palavra de lado, pois por dentro o clima estava ficando favorável. O pensamento aos poucos se acalmava e uma sensação bem agradável recompensava. Desse modo a paz se realizava, no meio da floresta, Panu regozijava. Conseguindo refúgio, o estresse aliviava. Assim, as suas questões, ele solucionava, por ali ficava e para a cidade não voltava. Mas não é tão simples como se passava. Tinha um erro que lá no fundo estava. Então a consciência convocou o juízo para relembrar o que lhe faltava.

Horas se passaram para resolver a situação. Sentado com as pernas cruzadas, foi o mantra “ON” que mexeu com a emoção. Um filme passou na cabeça do símio e o velho mestre mostrou por que é exímio. E as palavras finalmente jorraram, junto com as lágrimas da compreensão que proliferaram. Muito sofrimento tem origem no apego a coisas que a ninguém pertencem e apenas afligem. De vez em quando, o “eu” é tomado pelo personagem e o dono vira a propriedade, se perdendo numa miragem. Assim respirou, sentiu e soltou, pois descobriu que o brinquedo em si não tinha tanto valor.
 

Mas outra questão surgiu, pois havia um problema dentro do qual Panu se viu. Quanto sofrimento ele não infligiu, pois sorrateiramente pegou o caxixi da preguiça e fugiu. A meditação mostrou o engano da forma como ele agiu, mas também lhe revelou um exemplo de como o Macaco Velho, em sua própria infância, um erro parecido corrigiu. Com o espírito sereno, agradeceu pelo conhecimento extraterreno daquele mestre que lhe ensinou yoga e tornou o clima mais ameno.

 

Voltando ao seu bando, procurou uma forma de convencer o Macaco Forte, oferecendo a ele algo com que se importe. Traçou um plano e descobriu o norte. “Se tu és tão forte quanto inteligente, fará um negócio bom para a gente, sendo por um instante benevolente. Vou descobrir como se faz o caxixi e então todos poderão rir. Mas para isso, preciso que façamos um compromisso. Tu me devolves o que está contigo e em breve poderás ter tantos quanto desejares o teu próprio umbigo.” Achando a proposta promissora, entregou o objeto numa boa, selando uma aliança apaziguadora.

Correndo para reparar o ato de subtração, foi pedir desculpas à preguiça com todo o coração. Lá estava ela estendida no chão, desde o início desta estória dormindo com o seu jeitão. Despertou calmamente para atender ao macaco, sem saber da situação. “AHHHHHHhh, perdi alguma coisa enquanto dormia? É tão bom sonhar com a lua que me alumia!”.

 

O sofrimento na verdade é de quem merece, por isso, o bichano não passou por nenhum estresse. Mas mesmo assim, Panu explicou o fato, relatando tudo para o bicho atrasado, que muito relaxado, concordou em ensinar a como fazer o desiderato. Tão fácil, trançando o vime no compasso, nunca vi uma preguiça fazer algo tão sem desembaraço. Mesmo os mais lentos, em alguma coisa, podem se mostrar bem espertos no braço.

 

Praticou e praticou até poder ensinar. Assim foi possível a todo o bando contemplar. Cada um teve o seu para brincar. Balançando o caxixi, as sementinhas chacoalhavam dentro do vime de tanto se alegrar. Mas a semente verdadeira, no âmago de Panu, um novo ser fez brotar. Não era mais inocente, mas tinha o poder de contemplar. Como é bom o erro ser capaz de consertar. Melhor ainda, é se antecipar. Praticar yoga para um mundo melhor despertar. Evitando a dor, aprender pelo amor e as boas novas anunciar.