VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

02/04/2016

Hoje no Brasil, observa-se um fenômeno clássico de grupo. Quanto mais uma pessoa se torna identificada e partidária de um conjunto de pessoas, maior a probabilidade de pensar, sentir e agir de acordo com o movimento delas. Quando o número de indivíduos transforma-se numa massa, surge uma tendência para a diminuição da capacidade crítica decorrente do enfraquecimento da razão. É um estágio perigoso da vida em sociedade, pois as suposições compartilhadas transformam-se em crenças inegociáveis e o que era opinião adquire status de verdade. É quando é feita a cisão entre “nós” e “eles” e se fortalece a tendenciosidade do ego. O pensamento de grupo alimenta uma cegueira para as ideias divergentes e impossibilita a empatia (com os outsiders, em outros termos, com os de fora da panelinha). Essa é uma receita para o ódio e a intolerância que vem assolando tantas regiões do planeta. Para isso tem uma milenar receita: VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...!

Quando o ódio quiser lhe capturar, utilize esse mantra. Uma médica, por exemplo, que se nega a atender uma pessoa só por causa da cor da camisa que ela usa, não está respirando direito e está desconhecendo a ligação que existe entre todos os seres humanos: somos afinal todos irmãos. Ela perdeu uma oportunidade de exercitar a humildade e se desapegar de sua condição partidária. Quando a pessoa sentir vontade de xingar, vaiar ou prejudicar uma outra por causa da cor da camisa que ela usa, ela tem que lembrar que foi capturada por algum regime de verdade do grupo ao qual está filiada. Quando você ouvir alguém afirmando uma suposta verdade com raiva e rancor, seja gritando “fora” ou “dentro”, seja "não vai ter golpe" ou "impeachment", algum regime de verdade está tentando lhe capturar. Isso tudo passará e a vida continuará, o remédio para não se estressar eu estou a lhe receitar: VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR... 
Tomar consciência da respiração é um caminho para o autoconhecimento e, consequentemente, para a descoberta de que o “nós X eles” é uma ficção construída socialmente. Sentir a tensão que aprisiona o corpo faz pensar que existe um “encosto” que não nos pertence. Então vem o desejo de soltar o ódio e as emoções negativas que capturaram o bom senso e a razão. Esse mantra pode desarmar a tensão que se constituiu entre os irmãos brasileiros. VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...
Se a presidente Dilma sair, teremos que lidar com os nossos problemas de mais de 500 anos. Se a presidente Dilma ficar, teremos que lidar com os nossos problemas de mais de 500 anos. A aceitação da condição brasileira é um passo importante para avaliar o que é possível fazer e planejar o quanto de trabalho há ainda por ser feito. Aceitação sem resignação, mas com autoconsciência e esperança na transformação. Enquanto isso, eu me pergunto o que posso fazer para me manter digno e íntegro? Não me sinto melhor do que nenhum daqueles que estão no poder, mas imagino que atualmente estou dormindo melhor do que eles, pois não fui corrompido pela sedução da riqueza material e do poder. Quem teve a sua inocência corrompida, certamente não deve estar respirando direito e possivelmente está se remoendo em seu leito. Para continuar roubando do povo é preciso uma estrutura de personalidade perversa que se desconecta do universo e dos irmãos, só assim para roubar a merenda das crianças sem dó nem piedade no coração. Uma estrutura que se revela num corpo que respira superficialmente; num corpo entorpecido e travado para as emoções que conduzem à paz e à união; num corpo débil que não solta a rigidez, pois tem a fantasia de que o poder poderia assim permanecer eternamente na sua couraça. Peço forças para que eu nunca me corrompa e nem me lambuze com o dinheiro do povo, mas reconheço que também sou limitado e devo ficar alertar para não ficar nesse estado. Ainda estou aprendendo a ser mais honesto comigo mesmo e nem sei o quanto ainda tenho que aprender com meus defeitos e imperfeições. O meu ego só pode ver um pedacinho do lobo que se esconde em vestes de carneiro. É preciso transmutar o lobo aos pouquinhos (Veja a aula do porquinho da Índia (www.ostresporquinhosdaindia.com.br). A vitude vem quando se pratica bons feitos, deixando livre a razão e cultivando o respeito. Não precisa ser perfeito, basta relembrar da sua essência e começar de algum jeito. Seja o cidadão, deputado ou o prefeito, venham abrir o peito. Para a consciência e a ética resgatar, VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...

Inspirando, faz a barriga crescer, pois o pulmão  irás encher

Expirando, o pulmão esvazia,  e a barriga tu tens que encolher.

(livro: "Os Três Porquinhos da Índia", página 37)

Ao examinar bem direitinho, veremos que temos o cenário que merecemos. Uma escola razoável para quem paga e outra precária para o resto da população. Cada família vai levando do jeito que pode, sem um plano coletivo. Cada qual que se vire para comprar seu plano de doença para poder adoecer na comodidade de um hospital particular. Ainda falta amadurecimento da sociedade para pensar numa saúde coletiva. Além disso, muitos cidadãos brasileiros têm hábitos individualistas e hipócritas, portanto, causadores de estresse. Para viver diferente, é necessário um esforço grande e pensar no melhoramento daquilo que é público e de todos. Quando se reclama do trânsito, por exemplo, cada um é parte do problema e responsável, não adianta colocar a culpa nos extraterrestres, é a escolha individual que produz o atual caos. O cidadão pensa que compra o carro e depois reclama do engarrafamento. Mas é o carro que comprou ele através dos seus símbolos de status, poder e comodidade. Tudo ilusão! Depois vem a reclamação para o governo, pois a maioria quer a mesma coisa. Assim ele vai se transformando num consumidor compulsivo, egoísta e individualista. Em outros campos, se consome muito açúcar, filmes, a globo, muito álcool e outras drogas. Então, se você está no seu apartamento esperando a morte chegar, eu lhe recomendo tentar: VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...
E se elegêssemos Mujica presidente? Oh, infelizmente, ele é uruguaio, tem uma nacionalidade diferente. Já pensou um presidente indo trabalhar de fusca, um carro simples, mas eficiente? Eficiente, pois tem uma tecnologia adequada ao cargo de regente da nação, mantém o ocupante na simplicidade de sua condição. Mas aqui seria preciso um Mujica ao quadrado, que fosse para o planalto de ônibus coletivo, que tivesse como plano de saúde o SUS e que matriculasse os filhos na escola pública. Já sugeriram que os políticos deveriam ser obrigados a usar os serviços públicos iguaiszinhos aos da população que os elegeu. Mas devo lembrar que na memória nacional existe um cidadão que se aproxima do uruguaio em honestidade e patriotismo: é o nosso Policarpo Quaresma. Infelizmente, um ser honesto no Brasil, quando encontra o poder, sucumbe pra valer ou é morto antes de cumprir o seu dever. Ainda não estamos prontos para tanto patriotismo e honestidade. Mas podemos mentalizar, para que esse dia venha a chegar. Comecemos a campanha: “Policarpo presidente, para alegria da gente. Quaresma no poder, mudanças pra valer...”. Se você acredita que podemos mudar a realidade, VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...
A mudança mais duradoura começa no interior, seja do indivíduo ou do país. Começar a construir novos valores demanda a solidariedade entre as pessoas. Compartilhar os recursos e decidir coletivamente as prioridades, enfim celebrar a sustentabilidade. Em cada canto prevejo o surgimento de um sentimento policarpiano no coração do brasileiro, que começará a zelar pelos recursos públicos e ser mais honesto consigo mesmo. Aos poucos serão reduzidos os gastos públicos que alimenta o sistema político. Atualmente, é o povo que serve aos políticos que se tornaram profissionais do delírio e, em alguns casos, um perigoso inimigo. Política não é profissão e não produz nada que justifique tal remuneração.Vejo um futuro em que vereadores e deputados ganharão apenas o orgulho de servir ao bem público, como em alguns lugares do planeta em que não há salário para político. Vamos mentalizar, esse dia há de chegar. Para que um novo Brasil venha a se manifestar: VAMOS RESPIRAR, SENTIR, SOLTAR...