Thanks, Hendrix

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

09/2017

C#7

I had a dream, about my dear Jimi,

D7(9)     C#7(9)

And I asked him

C#7

How to play the guitar, So he told me,

D7(9)    C#7(9)

Practice Man

D7(9+)        G  

Only practice,

E7(9+)        A                 D7(9)

Just put your heart in your hands

 

Am                        

Flow down the highway,

         G7M/D

Paint your feelings in the sky

Am                        

Forget yourself

G7M/D

in the waves of time

Am                                

Walk above the blue lake,

G7M/D

Like a bird you will fly

C7M(9)                        B7M

On the strings of my guitar,

C7M(9)                                 B7M

the Jimi experience in your mind,

C#7(9)    C#11(9-)

Thanks, Hendrix

C#7

Woke up from the dream,

My reasoning said to me,

D7(9)   C#7(9)

I don't believe it

C#7

I was a child, I could not be

D7(9)            C#7(9)

an experienced man

D7(9+)       G     E7(9+)           A

So I chose my way, and I'm free today,

D7(9)

I am

 

Am                                

Mixing the rhythms and

G7M/D

sounds in my soul

Am

Opening my heart

G7M/D

to make a beautiful goal

Am

You will understand me,

G7M/D

Because you also know

C7M(9)                       B7M

I am a South American man,

C7M(9)                                B7M

All's possible in my Electric land,

C#7(9)   C#11(9-)

Thanks Hendrix

Na década de 1980, o rock'n'roll já fazia parte da minha vida devido à influência de meu irmão mais velho, que tinha um grupo de amigos da escola que curtiam Rolling Stones, Pink Floyd e Beatles. Era a época do vinil e as pessoas iam às casas umas das outras para ouvir discos na vitrola da sala. Alguns mais abastados tinham um quarto de som só para guardar os estoques de música gravados no saudoso “bolachão”. Além disso, as novidades internacionais demoravam a chegar no Brasil. Quando alguém aparecia com alguma raridade, normalmente compartilhava com a galera, gerando um frisson geral. Além disso, o K-7 era uma fita que possibilitava copiar os discos e partilhar democraticamente a produção da indústria musical, alcançando um maior número de pessoas. 

Ainda nessa infância, tinha o hábito de ir à locadora pegar filmes em VHS (Video Home System, um tipo de fita K-7 grande com imagens além do som), na famosa Chaplin Video. Mais tarde, o dono desse estabelecimento, que fazia a alegria da classe média do bairro onde morava, se tornaria meu amigo, um colega de ensino médio chamado Fábio. Foi lá onde loquei o filme “Crossroads” com o ator Ralph Macchio, mais conhecido pelo papel de Daniel San no filme Karatê Kid. Eu nem sabia na época que o guitarrista que fazia o duelo com ele era o extraordinário Steve Vai, que na verdade duelou com ele mesmo, uma vez que era a sua mão que atuou no mágico espetáculo das guitarras. O cenário do duelo de guitarras era um bar no Mississipi, onde Daniel San apostou todas as "suas fichas", ou seja, colocou sua própria alma em jogo para resgatar a alma do seu amigo. Curiosamente, quem venceu o confronto foi o clássico de Paganini Caprice nº 5, adaptado para a guitarra por Vai, que generosamente emprestou suas mãos para o protagonista esbanjar o domínio da música clássica e do blues. Essa miscigenação do clássico com o blues de raiz foi o que salvou a alma do amigo de Robert Johnson, Willie Brown (Joe Seneca), do  contrato que fizera com o Diabo, no passado, na mesma encruzilhada (crossroad) em que Johnson também tinha supostamente sucumbido a um acordo com o tal "capa preta".  

No início do filme, entretanto, tem uma cena antológica que evidencia a tensão entre esses estilos tão singulares de música. O jovem branco oprimido no conservatório de música clássica apesenta a música do grandioso Mozart "Turkish March" com um belo improviso de blues no final (https://youtu.be/1DgRCXJLpLU). O professor laconicamente sentencia: “foi apreciável até determinado ponto. Nunca terá o respeito dos mestres se continuar desperdiçando energia nessas misturas exóticas”. Talvez tivesse algo mais em jogo naquela tensão. Até pouco tempo, século vinte, era proibido o casamento entre “raças” no Estado da Virgínia, EUA. Em 1958 o casal Loving desafiou tal lei e foi acordado, no meio da noite, com o xerife dizendo: “Vocês estão detidos pelo crime de ter se casado com o tipo errado de pessoa”. Foram então condenados pelo juiz a serem banidos do Estado. Anos depois ganharam uma ação contra o Estado e reconquistaram o direito de viver na Virgínia. Foi um caso histórico para os direitos humanos.

Parece haver uma dificuldade daqueles bem estabelecidos, com poder e status, em compreender que o ser humano existe a partir da mistura e não da pureza. A proteção excessiva de uma determinada 'raça' ou costume local, com demasiado preciosismo, é a morte do sujeito que precisa da diversidade para se atualizar. Repetir o mesmo é empobrecer o espírito, mesmo que tal repetição seja perfeita. O novo surge do cruzamento da diversidade. O rock'n'roll é uma das manifestações que demostra a criatividade oriunda de tantos cruzamentos musicais. E mesmo aqui também existem os “puristas” que querem ditar o que é o “bom rock'n'roll” e tentam congelar a dinâmica da criatividade sonora. Essa tensão entre pureza e mistura, eu senti em mim mesmo.

A minha tendência a procurar as origens e os fundamentos já denunciava a vocação para a docência e a pesquisa. O filme Crossroads me levou ao marco zero do rock: o Blues. Mas especificamente, as 29 canções gravadas por Robert Johnson em 1936. Mas eu não tinha como ouvir blues, pois era algo exótico na Bahia. Eram poucas oportunidades. Até hoje fico me perguntando como eu desenvolvi esse paladar pela música oriunda dos afro-norte-americanos em plena terra do carnaval e samba proveniente dos afro-brasileiros. Alguma vida passada na África despertou a ligação? Ou está no sangue? Coisas que não sabemos explicar.

A adolescência começava a chegar no começo dos anos de 1990. Subtrai fraternalmente o violão pertencente a minha irmã. No prédio onde morávamos, tinham serestas frequentemente. O violeiro e cantador era Mario. Ele passava toda a noite tocando MPB e muitas canções populares. A música que mais me marcou nessa época foi “Dia Branco” de Geraldo Azevedo. Ela ainda era muito difícil para eu tocar. Eu olhava as revistinhas e copiava as notas das músicas mais fáceis. Assim toquei “Me chama” de Lobão, a primeira canção que toquei do começo ao fim. A voz falhando, entretanto, me deixava envergonhado. A tensão aumentava pelo fato de que queria usar o vilão para impressionar as garotas. Nunca deu certo. Mas pelo menos ganhei a companhia de um grande amigo: meu Tonante! (Essa era a marca do meu primeiro violão roubado de minha irmã, grato mana, sei que na época você não tinha a compreensão mais ampla que a maturidade nos dá, acredito que agora você sabe que eu fiz o que era certo).

Na Chaplin Video também aluguei outro filme que mexeu profundamente comigo. Um documentário sobre o festival de Woodstock. Aquele acontecimento de 3 dias expressou muito do que eu sentia na adolescência: necessidade de liberdade e de contestação. E assim reencontrei Hendrix e Joplin nessa encarnação. Entrei em sintonia imediatamente e inexplicavelmente. Sentia como se eu ainda estivesse lá no festival. Lamentei ter nascido na geração errada. Hoje penso que estive lá numa encarnação passada. Explicações que racionalizam um desejo enigmático.

Em 1991 começaram a aparecer em Salvador as lojas de CD, ameaçando os antigos bolachões. O único bolachão que tive me foi dado pelo meu pai na infância. Um disco de Roberto Carlos que guardo até hoje. Talvez essa tenha sido a minha primeira ligação com o rock, tendo em vista que ele participava da Jovem Guarda e traduzia, a sua maneira, a primeira fase dos Beatles, “eh eh eh”. Passeando com amigos no shopping, nos demoramos na sessão de CDs. E lá encontrei os meus primeiros três discos que cabiam nos exíguos recursos, para os padrões consumistas da classe média. Assim consegui levar para casa John Lee Hooker, Muddy Waters e Little Richard. Os dois primeiros foram os mais próximos de Robert Johnson que eu identifiquei. O último era tocado em algumas festas que frequentávamos. E eu nem tinha o aparelho para tocar os CDs. Ia para casa de colegas mais abastados ouvir Blues. Mas eles não gostavam muito e a alegria durava pouco. Somente após uma viagem que meus pais fizeram, trouxeram do Paraguai um aparelho portátil para tocar Cd. Aí pude convidar Janis Joplin para se fazer presente em meu quarto. Ela foi minha paixão à primeira vista, na exibição do VHS de Woodstock.

Em 1993, mudei de escola. Novos amigos vieram. João Bosco e João Carlos. Juntos fizemos o programa de rádio “30 Minutos de Rock'n'Roll”, durante o intervalo para o lanche. Conseguimos uma Enciclopédia do Rock para fazer os textos introdutórios do artista ou banda do dia. Não havia Google e a informação não circulava tão rapidamente quanto hoje. O professor Jaime Barros adotou a ideia, pois era mais uma oportunidade de exercitar a redação. Ele pessoalmente revisava os textos. Com ele tive o primeiro impulso para ler e ser lido. Ele me deu “Encontro Marcado” para ler e refletir sobre o momento adolescente que eu vivia. Acho que foi o primeiro livro que li completamente sem uma prova específica correspondente, sem uma cobrança burocrática. Mas o entusiasmo dele se abalou com o “incidente volumétrico” que aconteceu numa sexta-feira. Uma névoa púrpura invadiu o ambiente. O volume foi ao máximo. As meninas bem comportadas, aquelas que vão para o céu, saíram correndo esbaforidas. As meninas más, que vão para qualquer lugar, sacudiram as cabeças. Eu e Bosco estávamos com headfones na cabeça, de porta trancada. O coordenador desesperado tentava avisar do barulho que atormentava. Eu só sentia a presença de Hendrix provocativo e irreverente: “cuidado com os ouvidos, isso é letal!”. Escrevemos um texto, na semana seguinte, nos desculpando da falha técnica e colocamos música clássica para acalmar os ânimos. Tudo voltando à morna normalidade da realidade enfadonha.

Assim como Daniel San na versão Crossroads, desenvolvi essa vontade de sair por aí tocando em troca de um troco, em busca de aventura e de amadurecimento. Entretanto, não tinha a coragem necessária e nem frequentava com assiduidade os raros lugares do rock na Bahia dessa época. Eram poucos lugares e eu ainda nem sonhava em ter um carro para ir para os bares. Tive a sorte de um dia meu tio Magal nos levar, eu e meus irmãos, ao Atelier Bar Espaço Cultural, onde também era possível pescar belas canções de Blues. Além disso, em 1992 (não tenho certeza absoluta desse ano), assisti a um festival de Blues e pude perceber que o gueto do blues estava crescendo na cidade. Esse festival foi promovido pelo saudoso Álvaro Assmar, pioneiro no Blues na Bahia. Em outro momento assisti ao seu filho, Eric Assmar, estrear ao seu lado, no palco do teatro Acbeu, no corredor da Vitória. Se não me engano, ele tinha cerca de 12 anos, já dando conta do recado.

Quando tomei a primeira aula de violão de minha vida estava com o enteado de Mario, Lucas. Ao final da aula, Mario disse: Paulo, você irá aprender violão, mas Lucas não. Terá sido uma sentença? Ou ele viu a minha perseverança? Aprendi as notas e algumas coisas através da repetição solitária. Lembro talvez de mais duas aulas que frequentei em toda a minha vida, nada além disso. Tornei-me um analfabeto musical. Faz falta a participação numa dinâmica maior, desde berço, que naturalmente abre as portas para o aprendizado necessário. Mas malhei o quanto pude os meus dedos nas cordas altas do meu querido Tonante. Dedos calejados depois de muito sangue derramado. Sim, havia alguma disciplina. Entretanto, faltou algo mais para acreditar no impossível. Sabotei a minha perseverança. Tive medo do tamanho do desejo de viver a música. O álcool excessivo também impedia qualquer progresso consistente, assim como as dúvidas vocacionais próprias da confusão juvenil.

Foi nesse contexto que aconteceu a grande viagem onírica. Aos 13 anos, tive um sonho com Jimi Hendrix. Acordei em êxtase. Falei com o rei da guitarra. Eu não falava inglês nessa época. Tinha resistência em aprender outra língua. Mas misteriosamente nos comunicamos na língua inglesa. E o que você acha que eu perguntei a ele? “How to play guitar?” e ele disse para mim “Practice man, only practice, put your heart in your hands!”. Tinha descoberto a fórmula. Mas eu não a coloquei em prática. Ainda era uma criança sem capacidade de levar adiante um projeto tão absorvente quanto é viver a música inteiramente. Muitas vezes, tocar violão era apenas uma forma mais agradável de passar o tempo ao invés de cumprir as obrigações básicas de estudar e auxiliar nos afazeres domésticos.

Todas essas experiências musicais germinaram lentamente no meu inconsciente ao longo desses vinte e seis anos, tempo durante o qual ouvi um tanto de musicalidades de todo o mundo. De música clássica erudita às músicas invasivas das vizinhanças barulhentas e populares. Me aproximei da bossa nova e dos novos baianos. Li a autobiografia de Eric Clapton. E comecei eu mesmo a escrever canções. Uma característica marcante de minhas canções é a mistura de ritmos, que naturalmente são casados, gerando uma sonoridade autêntica e singular. Penso que seja sorte encontrar a nota certa para a palavra adequada e ainda encaixar o ritmo. Não sei explicar como um analfabeto pode fazer isso.  Comecei a frequentar a casa de um amigo chamado Wagner. Eu e ele fundamos o Papo Musical. (https://youtu.be/ko7yLpUwMD8). Um dia o guitarrista Marcelo, que também faz parte do Papo, me disse que eu faço “empresto modal”. Aí eu senti o peso do analfabetismo musical e da providência divina, simultaneamente. Mesmo com a minha limitação teórica e prática, ainda sim, venho recebendo belas canções de algum lugar do universo que ainda não tenho completa consciência de onde seja. É “Jimi Experience in my mind”.

Eu estava repetindo há alguns meses uma melodia a lá Hendrix, com acordes dissonantes. Combinei isso com um “break” a lá Novos Baianos, uma batida meio samba, meio bossa nova, mas com uma pegada miscigenada. Depois me dei conta da mistura que estava fazendo. Sou Sarará, nasci louro e com o cabelo encaracolado. Essa mesma síntese hoje é uma vantagem para mim, apesar de ter passado muito tempo sem saber qual era meu lugar no mundo. Nem o nativo que gosta de carnaval, nem o gringo branquelo com música sofisticada. Eu sou grato a Hendrix por ter sido um exemplo, para mim, de criação autêntica, servindo de inspiração para trazer o novo dentro de um sincretismo maravilhoso. Ele mesmo uma mistura de Índio com Preto, de Blues com rock'n'roll e guitarra psicodélica. Por isso tudo sou grato a ti, “Thanks Hendrix”!

É importante reconhecer o auxílio de meus professores de inglês Mirella e Henrique. Esta é uma forma interessante de aprender outra língua: fazendo as próprias canções e se deparando com as limitações das expressões singulares de cada cultura. Além de treinar a pronúncia e ajustar a gramática, ainda se faz necessário encaixar as correções sugeridas na métrica, na melodia e na poesia. Não se faz isso em um dia. "Only practice Man! Day after day!"