Professor, esquecimento e acontecimento literário.

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

26/03/2018

A persistência é a força propulsora da enzima que transmuta um fortuito esquecimento em acontecimento literário. Pela veia racionalizadora, tudo não passaria de delírio maníaco de uma mente excessivamente imaginativa. O fato é que estou aqui, às três da manhã, dia vinte e seis de março de dois mil e dezoito: para uns o louco, para mim, o persistente, a minha versão mais idolatrada por mim mesmo.

 

É preciso dizer que há pouco me encontrava na Argentina, ainda ontem às dezesseis horas. Viagem a trabalho que se desdobrou em alguns passeios, inclusive à Biblioteca Nacional de Buenos Aires, onde a sorte favoreceu um encontro com Jorge Luiz Borges e Gabriel Garcia Marques. Após demorada conversa, na qual fiquei a par de algumas peculiaridades de sua biografia, Gapo me forneceu um conselho sobre o processo de criação literária: "você pode até conversar com os amigo sobre o que está escrevendo, conte a eles, invete estórias também, alimente o imaginário com as possibilidades das  conversas de botequim, mas nunca mostre os manuscritos antes da revisão final - que nos dias de hoje é até mais fácil, pois existem os corretores ortográficos no editor de texto, muito diferente das nossas antigas máquinas de datilografar". Nos despedimos do Gabo. Ao sair da biblioteca, antiga residência dos Peron, segui conversando com a imaginação fantástica de Jorge, caminhando pela Ricoleta, quando nos decidimos a tomar um café no Biela. 

Imaginem o cansaço da viagem e a vontade de se esquecer na cama. Aliás, é justamente o esquecimento que atormenta a consciência, lembrando-a de sua falibilidade e estimulando-a a deferir os golpes no teclado com o ímpeto necessário para registrar os últimos acontecimentos com maior riqueza de detalhes. Ausentar-me no sono, por um instante que seja, devido aos apelos da inércia corporal, nesse exato momento, possivelmente conduziria lamentavelmente ao estado alterado mental da normalidade perdendo assim a oportunidade de acessar essa anormal realidade não alterada da consciência expandida. Enfim, um momento propício para o escritor.

 

Há duas horas atrás, estava na porta de casa, com a chave do carro na mão. Should stay or I should go? Acabado de chegar do aeroporto, me dei conta de ter esquecido o conjunto de queijos mineiros da Penélope Adormecida que, obviamente, a essa altura, já se atirara em nossa cama e nem imaginava a odisseia que seu Ulisses Atrapalhado intentava empreender naquele momento. Estaria o pacote ainda vivo? Após procurar em todas as coordenadas próximas, a única localização que o GPS cerebral indicava era há 33 quilômetros de distância, lembrando o esquecimento no cesto do carrinho de carregar malas e desenhando a rota na tela mental para o Aeroporto Internacional Dois de Julho (Minha versão do GPS é antiga e preserva os nomes históricos resistindo aos upgrades ilegítimos e de usurpação da coisa pública).

Quantas pessoas nesse mundinho de meu Deus pensariam em voltar para procurar a sacola que guardava uma parte significativa da felicidade conjugal? Um sujeito racional nem pensaria em voltar, pois, logicamente, alguém logo teria pegado nesse considerável espaço de tempo de mais de uma hora. Aliás, o racional não esqueceria, posto que controla e planeja tudo com afinco, sendo assim, este conto jamais teria sido alucinado por ele. O pragmático chegaria à conclusão de que não vale a pena o risco ou custo-benefício, uma vez que a probabilidade de recuperar os derivados do leite são mínimas, tendo em vista que nem para os achados e perdidos eles iriam por se tratar de material perecível. Entretanto, é bom lembrar que este último também não teria esquecido nada, visto que não compraria nada em viagem, já que lugar de comprar queijo é na padaria ou no mercado, não numa conexão de viagem internacional. Por mais que a troca de aeronave se dê na terra do queijo de Minas e a tentação acaricie o nariz com todos aqueles cheiros maliciosos, não é nada prático andar cheio de malas e pacotes entre portões de embarque, alfândegas e esteiras rolantes. Se não é o racional, nem o pragmático, quem é que saiu numa hora dessa da madrugada numa busca impossível? Pois bem, apresento-lhes eu, aquele marido apaixonado improvável que tenta a sorte mais difícil com o mais positivo dos pensamentos.

 

Depois dessa hesitação e ruminação, já no carro, ficou claro que não seria possível dormir sem nem pelo menos lutar exaustivamente até a morte, para que no mínimo a conjugue percebesse que a subtração do sonho lácteo foi seguida por uma peleja homérica para reaver o que lhe é de direito e de merecimento. Para si mesmo seria possível dizer: pelo menos eu tentei. Aí o racional daria rizadas das desventuras em série de um ser pouco prudente e cheio de ingênua esperança que só piora as coisas. E se bater o carro? E se tomar uma multa? E se, e se, cálculos e mais cálculos, pessimismos, pensamentos lógicos, “alguém já levou para casa”, “devem estar saboreando com alegria...”.

 

Mas o racional foi ficando para trás. A força estava presente. E se o esquecido fosse recuperado? Existem muitas pessoas boas por aí, daquelas que ficam inquietas enquanto não encontram o detentor do prêmio merecido, mas que por alguma razão tortuosa foi perdido. Elas sonham em consertar o curso natural dos acontecimentos, devolvendo a quem é de direito o que por algum motivo foi extraviado. Assim lhes é confiada a honra de ser o guardião abençoado do esquecido. Tudo isso na esperança de que a criatura desleixada e relapsa se dê conta da falta e resolva se aventurar no resgate, o mais rápido possível, para diminuir o seu tempo gasto como guarda volumes. Mentalizei alguma dessas pessoas pegando o embrulho e guardando-o. Bela imagem, talvez ainda esteja lá, no mesmo lugar, esperando passivamente o retorno do proprietário.

 

A energia para essa aventura madrugada adentro veio ainda na conexão em Minas Gerais, enquanto a querida esposa estava comprado os bem ditos queijos. Como de costume, durante grandes viagens que demandam sedentarismo forçado, faço intervenções artísticas e yogísticas. É uma performance que começa com o shirshāsana. De cabeça para baixo, repousando todo o peso do corpo sobre a cabeça, os ossos e as articulações agradecem o alívio da força da gravidade invertida. O sangue venoso facilmente é drenado ladeira a baixo para o coração, que alegremente o bombeia para ser renovado nos pulmões. Respirando tranquilamente, o sangue arterial hidrata toda a cabeça, possibilitando o regozijo de cada célula do corpo. O local escolhido, normalmente, é próximo a uma parede, num canto com pouca circulação de pessoas, pois quem passa fica estarrecido com a brutal inversão da perspectiva da realidade, propiciando ao transeunte uma imersão num desenho de Escher. Mas nesse dia, um transeuntinho foi quem mais chamou à atenção. Quando abri os olhos, ainda de ponta-cabeça, para checar as mochilas de viagem que estavam nas cadeiras em frente, me deparei com ele deitado e com o rosto próximo ao meu, proferindo um definitivo: “Oi! Também estou fazendo exercícios”. E ele me mostrava os seus 4 anos de pura espontaneidade de yoguin mirim.

Conclui os 3 minutos de pernas para o ar e voltei à posição hodierna com os pés no chão. Então, comecei a praticar alguns āsanas com o ilustre Augusto. Sua mãe me disse que ele, anteriormente, estava no avião com a perna cruzada dizendo “estou meditando mamãe”. Fizemos a postura do elefante. Alguns alongamentos. Postura da borboleta. Finalizamos com cerca de 2 minutos de mantra “on”. Parecia que a fila de transeuntes no portão de embarque mais próximo havia parado para vibrar na mesma sintonia de paz, fazendo as bocas como que abertas para engolir uma criança plenamente concentrada em uma atividade. Algumas crianças possuem concentração avantajada e assim posso apresentá-las com mais vagar os exercícios de Hatha Yoga. Não é mágica. Ou melhor, a mágica está em cada um. Estava sem um livro para dar a Augusto, mas tinha um marcador com o endereço www.ostresporquinhos.com.br. Expliquei para a mãe dele que se tratava de uma estória que introduzia o Yoga. Ela ficou muito alegre e eu ganhei um abraço tão saboroso do pequeno yoguin que fiquei protegido por qualquer desventura que viesse a acontecer nas 24 horas seguintes.

Com essa certeza em mente rememorada, segui caminho o mais rápido possível, dentro dos limites da velocidade para evitar o mal maior das multas excruciantes. Um exercício de auto domínio de longa duração, uma hora de direção madrugada a dentro, em busca do queijo perdido. A essa altura, já existia a certeza de que tudo tinha sido arranjado. Foi inconscientemente propositalmente premeditado, esse esquecimento, para que o escritor pudesse despertar e confirmar suas crenças de que tudo pode acontecer, inclusive o bem e, sobretudo, a sorte de uma história improvável sendo gestada. Tratei de diminuir a euforia lembrando que poderia acontecer de tudo, inclusive nada. No monólogo com Deus me senti desprezível e pequeno. “Que pensas que és tu? Como profanas o teu sono sagrado achando que é menos importante que esses tais pedaços de leite coalhado?”. Assim me preparei também para o pior, valorizando a existência do racional e do pragmático. E Poliana inundou o automóvel: pelo menos estava numa aventura noturna e me esforçando pelo bem em comum da nação. Eu tentei, não desisti, dei todo o sangue até os 49 minutos do segundo tempo.

 

Ao entrar na reta do desembarque de passageiros, parei o carro no meio da pista, nesta madrugada de hoje, em que havia considerável movimento, mas que permitia essa manobra não tão imprudente, levando em conta o caminhar das horas. Durante o trajeto nas penumbras da noite, vi coisas muito mais escabrosas acontecerem: marcha ré executada amiúde por motoristas incautos em muitas avenidas do percurso, contramãos "contra as mães" que os pariram, paradas em lugares absolutamente proibidos, enfim, tudo isso como se fosse uma segunda-feira sem lei. A madrugada é, em diversos aspectos, sombria e sem lei. Dirigi cuidadosamente tendo isso em vista. Parado, perguntei a um homem, que só posteriormente percebi que não se tratava de um agente de trânsito, mas de uma espécie de gerente, vestido com um colete luminoso, que organizava os táxis: “Deixei uma sacola vermelha de queijos num carrinho a cerca de duas horas atrás, o senhor viu algo?”. E lá se foi o primeiro não. Mas em seguida um sim: “Procure nos achados e perdidos, deve estar lá”. Não gostei dessa alternativa, pois imaginei que lá não deveriam ser guardados produtos perecíveis.

 

Estacionei o carro no mesmo lugar onde meu querido irmão tinha parado, na véspera, como de costume, para me encontrar e conduzir até em casa. Uma fraterna carona depois de longa viagem ao país hermano. Só um abençoado irmão para ficar acordado até a meia-noite e oferecer tal carinho. Foi lá onde, previamente, tinha transferido as malas do carrinho para o porta-malas do carro, deixando cuidadosamente o pacote mais importante por último. De tão confortavelmente instalado no cesto e depois de ter recebido tanto cuidado e atenção, ele decidiu caprichosamente, do alto de sua singular eminência, ficar por lá mesmo, exercendo ato discricionário que prescinde de justificativa razoável ao cidadão, inocente proprietário e consumidor subserviente.

 

Mas nesse retorno para o resgate, o professor estava sozinho. Olhei para os carrinhos parados na proximidade. Nada. Coração prevenido para qualquer possibilidade. Entrei no saguão principal e encontrei Daniel, um rapaz também vestido com um colete luminoso que imaginei estar ali para organizar alguma coisa. Expliquei a minha situação. Ele e seu colega Antônio entenderam absolutamente. Ambos casados e comprometidos com o bem estar da nação que se chama lar. “É o queijo de minha mulher, entende?”. Ele ligou para o supervisor imediatamente. Conversou e conversou. Os achados e perdidos só em horário comercial. E nada mais. Agradeci. Entretanto, ainda não havia conformação no coração, pois ideias fabulosas de pegar um avião até o(s) (c)Confins para recomprar as delícias de Minas surgiam espontaneamente na tela mental. Antes que a euforia sequestrasse completamente a razão, soltando o gatilho de emoções que desencadeiam todo tipo de comportamento inconsequente e impensado, seria mais prudente ir embora para casa dormir.

 

Saí novamente do saguão em direção ao carro. Mas antes de alcançar a maçaneta da porta, vi o colega do senhor Raimundo coletando os carrinhos de mala. Uma tentativa mais simples, antes de uma desistência sensata, não seria nenhuma grande insanidade, já que tinha ido até ali. Não tive dúvida. Descrevi o embrulho com cerca de 6 queijos diferentes de Minas Gerais. Ele disse que ia falar com Raimundo. Demorou um tanto. Fiquei conversando com Daniel e Antônio. Gente chegando e gente saindo. Pessoas de todos os tipos e nacionalidades transitando pela Bahia e apenas a imagem do senhor Raimundo, na sua tranquilidade baiana, se destacou como figura absolutamente essencial na manutenção da ordem cósmica. Me olhou e disse: “guardei algo para você”. A mentalização tinha funcionado e agora eu tinha descoberto a pessoa que recebera a mensagem telepática, o ser do bem previamente idealizado se manifestara nessa forma de homem de carne e osso. Não pensei duas vezes, abracei aquela figura boníssima e fofíssima. “O senhor salvou a alegria da minha semana, que é a alegria de minha mulher”. Rimos um tanto dessa situação que só quem é casado para entender o sacrifício que é feito para manter uma convivência harmoniosa, evitando as contrariedades que são da conta do marido.

 

Ele entrou no saguão e eu fiquei esperando, feliz pela improvável e imponderável recuperação num aeroporto internacional de tamanho movimento. Resolvi presentear a cada um com um exemplar do livro “Os Três Porquinhos da Índia”. Retirei os cinco exemplares. Aquela saída do aeroporto se transformou numa sessão de autógrafos. “Leiam esse cordel e se divirtam, contem para seus filhos!”. Por isso, consegui me lembrar do nome de três dos cinco que me auxiliaram naquela madrugada. Recebi minha sacola vermelha premiada de volta.

 

No momento de ligar o carro para retornar e receber o descanso hercúleo merecido, resolvi tirar uma foto para registrar o momento. Sacola vermelha de queijos no carrinho de malas. "Por favor, sorria excelência". Flash, lindo! Com a devida atenção, os queijos consentiram em ser acomodados no banco e transportados para a dona. Novamente na direção, a imaginação trouxe formas de descrever a façanha. Dar um sentido literário para toda essa irrelevante odisseia do esquecimento aparente. Deixar registrado para as gerações posteriores a persistência do escritor. Dar exemplo para os filhos ou apenas receber um beijo apaixonado da pessoa amada. “Exemplo? Esquecido, esbaforido, desorganizado, descuidado...”. A razão corrige de forma necessária a exaltação do erro, moderando essa capacidade insana de transformar uma desdita em algo até certo ponto desejável e, quem sabe, inconscientemente premeditado. Compensando assim, a capacidade imaginativa ilimitada para criar sentido para o imponderável, ela vem trazendo a estrela da manhã.

 

O sol já vai alto. Acordar e levantar. Café da manhã. Levar crianças na escola. Rotina, querida rotina. Dela deriva a disciplina, fundamento da maestria, para aqueles que aprendem a conviver de forma cooperativa. Dia após dia. Despacito. Mais tarde irei partilhar essa crônica com o mundo. Existem cinco testemunhas para comprovar a veracidade dessa madrugada estonteante que passou. Sozinho, começo a duvidar de mim mesmo e facilmente poderia construir uma tese explicativa paralela: foi tudo um sonho, fruto de uma imaginação cansada no fim da viagem.

 

Talvez Ela acredite, quando souber. Se quiser, pode contar ou enviar o link para a minha amada Penélope. Seria uma agradável revelação? Ou seria motivo para se chatear com toda essa improvisação, que poderia ter tido um final trágico e acaba revelando o traço de personalidade do marido esquecido que tanto aborrece? Vocês já sabem, pelo retrospecto, que sou positivo e deduzem logicamente que espero ansiosamente o dia em que Ela lerá esta crônica e se emocionará com a odisseia de seu Ulisses apaixonado, perdoando o esquecimento e celebrando a persistência. Por enquanto, me contento com a observância do bem em comum, sendo suficiente a inocência que desconhece a origem do prazer, a inconsciência de toda a labuta noturna, essa ingenuidade que me seduz ao dizer docilmente na mesa de café da manhã: "Bom dia amor, que queijo maravilhoso esse que eu comprei! Não é?"