O Professor e o Arqueiro Habilidoso no Campo do Bhaghavad Gita.

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

22/10/2015

Prezado Paulo Henrique Ganso,

 

Venho acompanhando há um tempo o teu futebol, desde o time anterior até o teu clube atual, para o qual eu torço desde criança. Sou uma pessoa distante da média, não sei se para mais ou para menos, em outras palavras, me sinto diferente em relação à ideologia dominante. Para mim futebol é uma arte e não uma guerra de estratégias. Quero me emocionar e não apenas ganhar pontos ou campeonatos. Resultados são detalhes que coroam uma equipe e subjulgam o adversário. É um jogo cruel em que sempre alguém sai perdendo. Entretanto, na arte, todos ganham. A derrota é apenas uma ilusão, pois sempre se ganha alguma coisa, nem que seja o aprendizado. A vitória também é uma ilusão, pois está sempre no passado e não nos pertence mais. Só temos o presente, o aqui e o agora. Sempre é possível resignificar a vitória e a derrota a depender da criatividade da pessoa. Por exemplo, o fato de ter me inspirado para escrever essa carta mesmo diante da nossa última derrota de ontem foi a minha vitória. Mas para vencer, tive que aceitar a vida como ela é. Depois veio o aprendizado junto com as ideias e a inspiração.

Para mim, tu não precisas fazer mais nada para conquistar o meu coração. Só as pinturas que criaste estão eternizadas em minha memória. Perceba que concordo com Paulo Cezar Caju: tu fazes poesias em campo. Não peço mais nada como torcedor, mesmo porque, nosso clube já tem tudo. Não me importo com resultados e eu sempre te escolherei para jogar no meu time. Quando eu jogo bola, não me sinto pressionado para ganhar, mas fico muito feliz quando realizo uma jogada extraordinária ou quando driblo o zagueiro, aplicando-lhe uma caneta em cima da linha de fundo, para depois enganar sutilmente o goleiro que achou que fechava completamente o ângulo, somente para acertar, caprichosamente, a trave e ver a bola majestosamente passear de volta por toda a extensão do gol, segundos durante os quais é possível ouvir o silêncio e encontrar a inspiração divina.

No último jogo de ontem, apesar da derrota, fiquei feliz quando consegui traçar um paralelo entre o que eu acho que tu estás passando e o Bhaghava Gita. Neste livro indiano há uma história muito significativa para mim. O contexto é uma guerra na qual há o mais habilidoso guerreiro, chamado Arjuna. Ele é capaz de acertar, com sua flecha, um alvo em movimento, com os olhos vendados. Todos nós somos um pouco do Arjuna, pois cada um de nós tem uma habilidade especial a ser desenvolvida. Em alguns momentos da vida, esta habilidade fica travada, nada acontece direito e entramos num período de confusão e abatimento. Arjuna entrou num desses momentos no campo de batalha. Ele não queria a guerra, pois tinha muito afeto por algumas pessoas que estavam no exército inimigo. Ele também sentiu compaixão e pensou no sofrimento que poderia infligir a todos os soldados adversários e a suas respectivas famílias. É um homem altruísta capaz de altos sacrifícios em prol da paz na humanidade. De que vale ganhar uma guerra se no coração ficam as marcas de um mal provocado aos irmãos? Lamentou-se e retirou-se em resignação.

A história, porém, ainda está no meio. Aparentemente, a guerra está quase perdida, pois o exército adversário é mais numeroso e aparentemente mais forte. Nas negociações antes da guerra, o Rei Krisna era o amigo em comum dos dois reinos e não poderia decidir de qual lado ficaria. Ele sugeriu à Arjuna que fizesse uma escolha: um dos adversários ficaria com todo o exército do Rei e o outro ficaria com o próprio rei Krisna. Arjuna não pestanejou, ficou com o rei que também é o seu guia espiritual, e desprezou o exército dele.

Aqui começam os ensinamentos do Yoga oferecidos gentilmente por Krisna, que se tornou o humilde cocheiro de Arjuna. Existem três tipos de ações que pertencem ao plano material: a bondade, a paixão e a ignorância. É possível ganhar um jogo de futebol através da brutalidade, da intimidação e da provocação. Mas depois de realizada a proeza, resta um gosto amargo na boca por ter perdido a nobreza. A paixão é outra força que pode levar a ganhar a partida, pois mobiliza muita energia e faz a máquina funcionar sem letargia. “Vai meu time, vamos ganhar!” O problema é que gera um apego violento com a vitória e qualquer imprevisto ou situação vexatória, que ponha a paixão em xeque, arrasta todo o time para um estado de confusão e moratória. Já o bondoso pratica o fair play e pode vencer com elegância obedecendo à lei. Ele vive a ordem natural das coias. O interessante deste último é que ele também perde com elegância e se protege do efeito aterrador das derrotas. Mas todas essas ações são humanas e procuram algo em troca, ativando a lei Kármica da ação e reação. Quando se pratica o bem, têm-se o bem e assim se chega mais além. Certamente a ação mais virtuosa é a bondosa, mas infelizmente, o mundo nem sempre corresponde à altura e por vezes somos desafiados com a falta de compostura. As tentações do caminho e os dilemas éticos das escolhas nos lançam num redemoinho. Mas todas as ações nos fazem ficar ainda mais ligados à roda da vida, o samsara, que pode ser entendida como a repetição de uma mesma toada até que o espírito aprenda e opere uma transformação adequada.

O mundo das ações humanas é encenado em muitos palcos nos quais temos que desenvolver muitas habilidades, a começar pela interpretação do cenário e compreensão de toda a estrutura que mantém o show e paga ao erário. O artista se integra a tudo que está acontecendo ao seu redor, mesmo que tenha coisas que não lhe agradem, e faz o público se emocionar. Ele esquece até de sua própria identidade e representa convincentemente alguns personagens. Mas em algum momento, ele entra em crise, pois sua personalidade mais profunda não compactua com atitudes e ações levianas que acontecem em torno do palco. No circo da guerra, por exemplo, há muitos compromissos, há os bastidores e há a política fora dos estádios que torna o espetáculo sempre duvidoso e problemático. O próprio torcedor pratica maldades indiscriminadamente, apresentando toda sua insana incivilidade. O futebol virou um negócio e o que menos importa é a obra de arte. É a sociedade dos resultados, mas também do estresse, da esquizofrenia e da depressão. Não dá para manter a bola sempre alta. Os momentos de baixa fazem parte da vida e aprendemos muito com esses momentos, pois analisamos criticamente o que há de ruim e aquilo do qual não queremos fazer parte.  

Muito jogadores, para fugir do circo, fogem da concentração, utilizam drogas como o álcool e praticam sexo desenfreadamente para esquecer-se de si mesmos e do patético espetáculo dos negócios futebolísticos. Uma das coisas fundamentais do esporte de alto rendimento é entrar em campo com a cabeça vazia, não pensar em nada, apenas em executar o que já se sabe. Muitos atletas descrevem a sensação como um estado de fluxo, no qual se esquecem de si próprios, alteram a percepção do tempo. As horas passam como segundos, e a pessoa se sente integrada com o mundo, como se o campo, a bola, as arquibancadas, tudo em volta fosse uma coisa só, o eu e o que está ao redor se fundem. Não estou promovendo as orgias dionisíacas, mas apenas listando os caminhos possíveis para desenvolver a divina arte de fluir nos campos da vida. Tenho observado que se faz necessário resgatar esse estado sublime de fluxo. A meditação é outro caminho para obtê-lo e ao longo da vida é possível desenvolver alguma maneira de sintonizar o eu com o cosmos. Primeiro passo é a concentração, depois a meditação e enfim a contemplação. Dionísio vai pela orgia, Krisna vem pelo Yoga.  

Voltemos para nossa partida. Imagine o cenário da guerra: tu conheces muito bem o adversário e a torcida. É preciso neutralizar as vaias e as provocações, a ardileza do adversário. Como entrar em campo e transformar esse contexto para uma situação favorável? Como fazer a moeda cair em pé? Jogar com paixão, com bondade ou com ignorância? Como ganhar a guerra sem ficar com a lamentável sensação de ter atingido um ente querido? Krisna ensina que não podemos atingir o espírito de ninguém, pois este é livre e não nos pertence. Ele diz para Arjuna: “se você fugir da guerra magoará os seus mestres que estão do lado adversário, pois para eles seria uma honra morrer no campo de batalha por um discípulo virtuoso e honesto. E, além disso, a guerra é a oportunidade de reparar as injustiças provocadas pela corrupção do exército, que usa de artimanhas vergonhosas para se manter no poder”.

Para não entrar no dilema das consequências das ações humanas, Krisna ensina que existe um tipo de ação que é divina, que nada espera do que seja visto pela retina, transcende o apego e o karma refina. Apenas faz-se o que deve ser feito, o que é justo e de direito. Dessa forma é possível livrar-se de qualquer efeito. A maldição kármica que insiste em perseguir o sujeito pode ser vencida desse jeito.

Meu amigo, levanta a cabeça e tenciona o teu arco. Solta a flecha e contempla o teu ato. Respira, sente e solta. Não te preocupes com resultados: lembra-te apenas que tu és um artista-guerreiro, um espírito emancipado. Deixe o teu futebol fluir e te integra com tudo nesse jardim, sejas faceiro. Não te esforce demais, a bola que corre atrás. Tudo o que é demais está sobrando. Não entregues o teu máximo, pois na hora decisiva pode faltar fôlego para o teu principal ato. Apenas joga bola. Fica tranquilo, é só mais um jogo que deve ser jogado. Esquece o placar. Esquece de ti mesmo. Alcança a ação divina e te liberta. Não te peço nenhum milagre, mas apenas que fiques disponível para que o milagre aconteça.

Para aprender um pouco mais sobre as façanhas da ação desinteressada, aquela que é divina, te recomendo assistir ao filme “Lendas da Vida” ("The Legend of Bagger Vance") para aprender com Krisna, que foi interpretado por Will Smith. Nessa história, o campo era de golfe, mas, no fim, todos podem ser vitoriosos, pois aprendemos no campo da vida e deixamos as obras de arte como legado para as futuras gerações.

Espero que esta carta seja entregue a tempo da próxima partida, contra o teu antigo clube. Se não, fica para a literatura e que seja útil em outros momentos. Quando vieres à Bahia, ano que vem, entra em contato. Vem conhecer minha família e meus filhos. Tenho um presente para te dar.

Att,

Paulo Wenderson Teixeira Moraes (pwmoraes@yahoo.com)

22/10/2015