Literatura juvenil e Ioga

 

Francisco Antônio Zorzo – prof. da UFBA

Uma contribuição literária relevante consegue plasmar atos imaginativos e criar desdobramentos dos dados da cultura. A contribuição nasce, muitas vezes, do espanto perante as coisas conhecidas deste mundo, cujo questionamento é vertido em aventura. A literatura é rica em exemplos de recriações. Nesse sentido, os contos de fada tornaram-se excelentes argumentos para novas construções, e não só para livros, como também para o teatro e o cinema. 

Muitas vezes, é numa nova versão de um texto antigo que algo importante começa. Assim, o desejo do autor encontra encaminhamento a partir dos anseios de um Outro, mesmo que provenientes de um tempo distante ou de uma cultura pouco familiar. Conforme a concepção da psicologia, a mola do inconsciente aponta para a avanço da linguagem, enquanto atividade criadora, ofertando recursos para enfrentar questões da realidade.

Esses aspectos criativos estão perfeitamente contemplados no livro do professor do curso de psicologia da UEFS, Paulo Wenderson, “Os três porquinhos da Índia”. O texto de ficção destinado ao público infanto-juvenil é um produto híbrido entre a fábula dos três porquinhos e a fantástica literatura que provém do hinduísmo.

 

Paulo wenderson faz posição de Ioga no Campus da UEFS

Algumas pesquisas da psicologia produzem conhecimento através do estudo dos mitos, visando explicitar as motivações do sujeito perante o seu desejo. O inconsciente participa, mesmo que de modo camuflado, tanto dos monumentos literários, como dos vestígios e sonhos, dos chistes e dos sintomas subjetivos, por mecanismos de deslocamento simbólico.

Wenderson soube acolher esse desafio educativo, re-escrevendo o conto de modo prazeiroso e sem deixar de ser estimulante para a leitura. Diante desse desafio, produziu, junto aos seus três filhos, um relato enriquecido pelo esforço relacional e vivencial. 

Visando introduzir conteúdos da cultura oriental, tomou coragem e resolveu enfrentar o problema da violência na sociedade contemporânea e abordar a busca da vida saudável e do modo de vida vegetariano. Paulo Wenderson retomou a fábula dos três porquinhos sob ameaça do lobo mau, a partir de algumas operações de releitura e transcriação, que passam aqui a ser discutidas. 

Uma das formas operativas de reelaborar a fábula foi transportá-la para outro espaço social e cultural. Com essa operação imaginativa Paulo Wenderson transformou o lugar do conto, transportando a estória para uma Índia mítica. Os protagonistas da fábula foram situados nesse espaço, para encontrar as respectivas saídas nas aventuras que lhes cabem. 

No contexto literário, o lugar é um meio de representar a opressão, bem como de indicar a libertação e a viagem. O jogo transforma o espaço, inicialmente sob o signo da opressão, que só poderá ser deixado por via da astúcia e da reflexão. Cabe, aos protagonistas pela via do auto-conhecimento encontrar a escapatória para poder deixar esse espaço, incitados à descoberta e à criatividade.

Como se sabe, a metamorfose é uma imagem educacional ovidiana, que une o Ocidente e o Oriente. Wenderson mostra que a mutação¬ das formas animais e humanas canalizam um pensamento mimético que é próprio do desejo na infância. Isso está presente em muitas lendas e contos de fada e trata-se de um legado cultural que dá testemunho de um grande patrimônio de vivências humanas. Essa corporalização dos seres, tais como o lobo, o dragão e outros animais, traz o sentido de enfrentamento das dificuldades da vida e alcance de um novo patamar ou triunfo de uma forma cultural pela transformação do herói. 

O relato do livro oferece ainda a operação da superação, após um episódio de enfrentamento e confronto com o inimigo ou adversário simbólico. A Ioga entrou no livro como um ensinamento que cultiva a busca interior. As figuras e posições da Ioga oferecem um complemento simbólico para o leitor se engajar na educação através do mito (com o que se transcende a materialidade das dificuldades do mundo).
Com a superação, a forma alcança uma outra dimensão. Enfim o leitor infanto-juvenil dessa obra confronta¬ se com uma teia relacional bastante complexa, em que se interligam noções como solidariedade e crescimento, boas práticas de vida, etc. Isso já parece bastante bom para promover uma leitura.