Vovô, o que é Kangaroo court?

 

Paulo Wenderson Teixeira Moraes

27/05/2018

Esta pergunta chegou aos meus ouvidos com alguma estranheza. Pensei na área de biologia, num canguru fazendo a corte para acasalar com a fêmea, lá na distante e antiga Austrália. Entretanto, não sabia que o tal canguru estava aqui mesmo, na região à oeste de Greenwich e ao sul do Equador, que antigamente se chamava Brasil. Mas como? Num zoológico?

 

- Não vovô, não se trata exatamente do animal. Kangaroo court é um julgamento que é montado para incriminar alguém, sem levar em conta os procedimentos legais. Pode olhar o Wikipédia. Veja aqui, num clique.

- Mas está em inglês, eu não aprendi isso na escola.

- Mas vô, todos hoje sabem ler e falar inglês. Como é que o senhor conseguiu sobreviver tanto tempo assim sem saber?

- Eram tempos difíceis, nós não sabíamos o que fazíamos.

 

Meu netinho já sabia mais ou menos do que se tratava. Na verdade, sua esperteza queria saber como eu tinha reagido durante o ocorrido, onde eu estava e o que eu pensava a respeito, enfim, de que lado eu estava e se eu comia coxinha ou pão com mortadela. Lembrei automaticamente da pergunta que eu mesmo tinha feito ao meu pai a respeito da ditadura que houve entre os anos 60 e 80: “o que o senhor fez, meu pai?”. Ele me disse que cuidou da família, não tomou nenhum partido. Tinha medo de deixar filhos desamparados. No fundo da inocência a criança pede por um herói que resolva as opressões da humanidade, dividindo a sociedade em lados opostos: o bem e o mal.

O nome Lula naturalmente veio à cabeça, pois essa personalidade da política mundial tinha sido julgada por um juiz, do qual não me lembro mais o nome, do interior desse país chamado Brasil, com base no argumento de que “ele não tinha como não saber do que estava ocorrendo”. Essa era a prova que fundamentou as meritíssimas convicções, mais uma vez fortalecendo o ditado popular: “de cabeça de juiz e de bumbum de bebê pode se esperar sair qualquer coisa".

Me recordo que o Lula se tornou uma ideia que poderia ter antecipado, por um caminho mais independente, as grandes mudanças que ocorreram no mundo. A luta entre classes havia acabado no ano de 2040. Não devido a qualquer espécie de guerra sangrenta, mas sobretudo decorrente da tecnologia que avançou de maneira estonteante, tornando-se tão barata e acessível, que as pessoas não podiam mais ser enganadas. O petróleo foi substituído por tecnologias oriundas das descobertas do físico Tesla, que tornaram inviáveis a acumulação tradicional do capital oriunda do controle de recursos escassos estratégicos. Uma a uma, as grandes corporações foram caindo diante de uma população inteligente e informada, ávida por qualidade de vida e bem-estar social.

Mas antes disso, classes privilegiadas tentaram manter o domínio sobre as outras classes, para conservar um estilo de vida fadado ao fracasso. Assim como os senhores de escravos tinham resistido a acabar com a escravidão, fazendeiros da soja e do gado se apegaram ferrenhamente ao seu osso, retardando assim as mudanças estruturais em curso no planeta. A soja originalmente era um produto destinado à engorda do porco. No Egito, antes da Era de Jesus Cristo, já haviam hieroglifos que indicavam a utilização dela na lavoura para nitrogenar o solo, mas nunca como alimento humano. A indústria percebeu o nicho de mercado e criou demanda para lucros exorbitantes. Já a carne bovina se encontrava completamente contaminada com o excesso de antibióticos e hormônios. Não se tornou possível continuar com mentiras globalizadas para manter as grandes corporações. Imagine que toda uma geração nos anos de 1930 alimentava os bebês com leite condensado na mamadeira, pois uma grande indústria utilizava de propaganda enganosa. O preconceito passou de avó, para mãe e chegou até as netas. Demorou muito tempo para que uma nova geração de mães retomassem a confiança nas próprias tetas.

Vivia-se a base de comida de guerra: leite em pó, leite condensado, comida desidratada cheia de sal ou açucarada, enfim, comida que não estraga, que pode ser jogada de paraquedas e de fácil ingestão. De certa forma, os centros urbanos tinham se tornado centros de guerra, onde as pessoas lutavam entre si para conseguir sobressair-se e enriquecer. Não havia tempo para fazer a própria comida. Tudo vendido e propagandeado como se fosse a última maravilha do mundo civilizado. A mentira pode até ter perna longa, mas não dura para sempre. As tecnologias de massa e concentradoras de renda foram sendo substituídas por inteligência artificial, dando oportunidade para um planejamento mais sustentável do planeta e eliminando os hábitos danosos implantados por indústrias mal intencionadas.

Principalmente no Brasil, no ano de 2016, cinco pessoas detinham a riqueza equivalente a da metade da população do país, mais de 100 milhões de pessoas. Um câncer. Mas as pessoas nem viam essa distorção, pois ainda havia a força negativa de poucas emissoras de televisão que tentavam infantilizar a população, apresentando supostas verdades que obscureciam os verdadeiros problemas de concentração de renda e exclusão social. A inteligência artificial pegou a classe dominante de surpresa. Sem os meios tradicionais de dominação, o dinheiro foi ficando escasso. Não havia pessoas suficientemente qualificadas para as novas oportunidades de negócios, pois tinham eliminado o investido em educação de qualidade. Os ricos da província não sabiam trabalhar com as moedas virtuais e chegaram atrasados na explosão do bitcoin. É como se eles tivessem guardado o dinheiro dentro do colchão e enfiado as cabeças num buraco, como avestruzes. Pensavam que podiam prosperar por si só, sem incluir o resto da sociedade.

Alguns economistas apontavam o desastre iminente. A economia é como um trem, não adianta o vagão do rico ser luxuoso e poder andar a duzentos quilômetros por hora se o vagão dos pobres só anda a vinte quilômetros por hora. Todo o trem andará na mesma velocidade do mais lento. A classe privilegiada tinha Ferrari, mas não tinha as estradas para poder andar à 200km/h. Muitas oportunidades foram perdidas. Houveram até tentativas de levar universidades para os vagões do povão. O cérebro de avestruz, entretanto, preferiu voltar ao passado do escravo desqualificado. A falta de vigor da elite daquele país, que era tratado como "em desenvolvimento", levantou a suspeita de que na verdade não se tratava de uma elite propriamente dita, mas apenas de uma classe privilegiada. A elite de um país procura desenvolver um projeto próprio e autônomo, não apenas com o poderio monetário, mas com a força das ideias, aliando-se também aos professores, intelectuais e sábios da sociedade. No caso dessa classe privilegiada, ao longo da história, o projeto de país foi entregue às elites de outros países, na doce-amarga ilusão de que elas poderiam ser melhores do que os próprios brasileiros, pelo fato de serem mais escolarizados, falarem mais de um idioma e terem uma maior fatia da riqueza material das nações.   

Assim como a cana-de-açúcar, o café ou o cacau, a mesma dinâmica da monocultura se repetiu: um país que vivia apenas para adoçar a boca do estrangeiro se tornando um escravo vulnerável. Entregar matéria-prima barata para comprar produtos sofisticados é coisa de nativo ingênuo que se ilude com o espelho. Com a carne e a soja, não foi muito diferente. A maior parte do lucro ia direto para a indústria química que produzia os agrotóxicos, fertilizantes, antibióticos e hormônios. Venenos que já eram proibidos nos países europeus, mas que ainda eram vendidos para os países escravizados pela ganância das grandes corporações.

Comecei a ficar envergonhado perante meu neto, pois eu também fui enganado pela onda que varria a sensatez de boa parte da população. Como poderei falar para ele que eu abri champanhe enquanto um ex-presidente era preso sem uma prova concreta? Eu fiz parte do “circo do canguru”, inocentemente convidado a apoiar aquele juiz - qual é mesmo o nome dele? Não lembro, pois ele não fez nada mais de significante, além disso, em toda sua carreira burocrática. Só ficou notório na época por ter sido o mentor da “Kangaroo court”. Essa expressão circulava no mundo, mas não no Brasil e não em português. Talvez o juiz tenha ficado no mesmo lugar dos assassinos de Jonh Lennon, Kennedy, Gandi ou de Luther King. Ninguém lembra do nome daqueles que remam contra a correnteza do bom-senso. Que estranho: ele chegou a ser herói, mas definhou no esquecimento!

Percebi tardiamente, com muita dor, a letargia imposta pela prisão mental na qual vivíamos todos há cerca de 50 anos atrás. Tinha eu apenas 30 anos de vida. Imaginem que apenas poucos veículos de comunicação sustentavam os regimes de verdade, tendenciosamente construídos para legitimar a dominação da classe economicamente privilegiada. No dia 7 de abril de 2018, uma parte significativa dos brasileiros continuavam cegos. Dois grandes jornais nacionais tiveram como manchete: “Lula Preso”. No subtítulo se lia “Condenado há 12 anos por corrupção...”. Mas meses antes, 23 de janeiro, o jornal New York Times noticiava o pitoresco julgamento da seguinte forma: “The evidence against Mr. da Silva is far below the standards that would be taken seriously in, for example, the United States’ judicial system.” Mais adiante no mesmo artigo, é escrito: “In something that Americans might consider to be a kangaroo court proceeding...”.

Como explicar aqueles fogos de artifício e o champanhe para o meu neto? E aquela cerveja toda doada por um empresário ressentido para celebrar o veredito equivocado? Mas agora nada disso importa. Não existe mais a noção ultrapassada de nação. A corrupção nos dias de hoje é inviável. Tudo está na rede e no corpo através da biotecnologia. A mentira perdeu as suas pernas, pois a informação se tornou livre de fato. Entretanto, como explicar os novos mecanismos de dominação para meu netinho? Tão esperto, inteligente e engajado nas nanotecnologias? Como eu podeira prever, há 40 anos atrás, todas essas mudanças nas relações de poder? Como prever os novos tipos de escravidão tecnológica e o super humano perfeito que não mente? A inteligência artificial e a engenharia genética venceram. A inteligência artificial caiu do céu através dos extraterrestres. Enquanto se falava em intervenção militar, a terra foi surpreendida pela intervenção alienígena. A parte boa é que ninguém mais morreu, pois todos agora, na hora do desencarne, vão para a nuvem. Ninguém mais envelhece, troca-se de corpo. Todos são inteligentes e bem comportados, ou seja, máquinas TRANSHUMANAS (Tudo que é perfeito demais neste planeta pode ter algum efeito colateral indesejado, mas poucos sentem saudades do passado - "Ah! Que saudade da trans(A)humana!* outra coisa difícil para explicar às crianças de hoje"). Os cabeçudos verdes eliminaram os pobres e os ricos. Existem humanos apenas como memórias, uma vez que as pessoas tornaram-se ideias cibernéticas. O próprio Lula tinha antecipado isso ao dizer que "eu não sou um homem, mas uma ideia!". Enfim, como explicar com toda a minha inteligência artificial ao meu netinho ciborgue que nem toda ideia é autêntica na mesma medida, principalmente quando o pensamento não é livre? Para ele, eu consegui formular, humildemente, a seguinte resposta:

- Nós não detínhamos as condições de julgar por nós mesmos. Só com a distância do tempo foi possível compreender o ocorrido. Pelo menos, foram banidas as coxinhas fritas no criminoso óleo de soja e nunca mais se ouviu falar em Kangaroo court.

*P.S.: Existe uma música que protestou contra o domínio cibernético da bioengenharia: Trans(A)humana. Ouça no link a seguir: